Como o reggaeton cruzou fronteiras linguísticas, geográficas e culturais para conquistar o Brasil — e o mundo.
Allianz Parque lotado. Mais de 45 mil pessoas aguardam o show do cantor porto-riquenho Bad Bunny. É vinte de fevereiro de 2026, pleno verão em São Paulo. O calor é intenso, mas ninguém parece se importar. A multidão se reúne para celebrar, cantar e, claro, perrear muito.
Uma hora antes do início, a banda Chuwi, também de Porto Rico, sobe ao palco e aquece o público. Às oito e meia da noite, as luzes se apagam. O vídeo de abertura começa a rodar nos telões. Nele, duas pessoas do país onde o show acontece contam um pouco da história de Benito Antonio Martínez Ocasio, o nome por trás do fenômeno mundial conhecido como Bad Bunny.
Até então, a turnê havia passado apenas por países de língua espanhola, e os vídeos de abertura eram todos narrados em espanhol. Nas redes sociais, fãs brasileiros se perguntavam: será que aqui seria diferente?
Seria.
Na tela, aparecem os jovens atores Álvaro Emílio, de 17 anos, e Lili Siqueira, de 16. Eles contam a história em português e encerram a apresentação cantando um trecho em espanhol, sendo acompanhados pelo público. Quando Bad Bunny finalmente surge no palco, o estádio explode. Palmas, gritos, a multidão em coro dizendo "Benito! Benito!".
"Un aplauso pa mami y papi porque en verdad rompieron"Bad Bunny — Allianz Parque, São Paulo
E então o show começa.
Mas, na verdade, essa reportagem não é sobre o Bad Bunny.
É sobre algo maior: o crescimento do reggaeton e a forma como esse gênero latino tem conquistado cada vez mais espaço no Brasil. Grande parte da multidão que canta em espanhol no meio de um estádio em São Paulo não é apenas fã de um artista. Ela faz parte de um fenômeno cultural muito mais amplo.
Nos últimos anos, o reggaeton, gênero musical que nasceu no Caribe, atravessou fronteiras linguísticas, geográficas e culturais. Hoje, artistas latinos como Bad Bunny, os colombianos J. Balvin, Maluma, Feid e Karol G, argentinos Duki, Maria Becerra, Tini e Emília Mernes, e, a brasileira, Anitta ocupam diversas vezes os primeiros lugares das paradas globais, acumulam bilhões de reproduções nas plataformas digitais e lotam estádios em diferentes partes do mundo.
No Brasil, esse movimento também ganha força. Festas dedicadas ao gênero se multiplicam, DJs passam a incluí-lo em seus sets e o público brasileiro se integra cada vez mais ao espírito "reggaetonero".
O berço do reggaeton não é único. Sua origem remonta ao Caribe, mais especificamente ao Panamá e Porto Rico. Entretanto, seu surgimento é resultado de um encontro de ritmos, culturas e outros territórios espalhados pela região caribenha e pela diáspora latino-americana.
Para entender essa trajetória, uma das principais referências é o livro Reggaeton, organizado pelos pesquisadores Raquel Z. Rivera, Wayne Marshall e Deborah Pacini Hernandez. Nele, o reggaeton é descrito como um gênero que surge da confluência de diferentes tradições musicais e culturais. Por não possuir um único país de origem definido, ele acaba se configurando como um gênero musical essencialmente transnacional.
O Panamá é apontado como um local crucial na formação do reggaeton, visto que foi pioneiro no chamado "reggae em espanhol". Na década de 1980, artistas panamenhos adaptaram o reggae jamaicano com letras cantadas em espanhol. Paralelamente, temos a influência do movimento e da música underground porto-riquenha, que podemos dizer ser um dos principais responsáveis pelo reggaeton que conhecemos hoje.
Em Porto Rico, no final da década de 1980, surgiu esse termo para diferenciar as músicas tocadas e comercializadas no mainstream das que não seguiam o padrão de mercado. As músicas pertencentes ao gênero underground eram aquelas que contavam a realidade de bairros marginalizados do país, sem romantização. Falavam de temas como: a sexualidade, drogas, riqueza, pobreza e violência, ou seja, temas tabus da sociedade.
O underground circulava predominantemente em fitas cassete vendidas de forma informal e tocava em festas de bairro. Foi nesse cenário que surgiram as primeiras manifestações das autoridades e setores conservadores da população porto-riquenha. A música passou a ser associada a comportamentos considerados imorais e prejudiciais à juventude. Em meio à política de segurança conhecida como "Mano Dura Contra o Crime", operações policiais chegaram a apreender gravações do gênero.
Mesmo com a repressão e censura, o reggaeton, ainda underground, não desapareceu. Pelo contrário, ganhou ainda mais força em circuitos informais e reforçou seu caráter contestador, sendo um gênero associado a jovens de classes sociais mais baixas. Para eles, a música não era só entretenimento, ela era uma forma de expressão e identidade.
Outro local importante para a definição e disseminação do reggaeton foi a cidade de Nova Iorque. Também nas décadas de 1980 e 1990, os Estados Unidos receberam um grande número de imigrantes caribenhos, muitos jamaicanos, panamenhos e porto-riquenhos, além de dominicanos, que juntos viveram e foram racializados. As gravações de músicas underground porto-riquenhas, que futuramente viriam a ser o reggaeton, também circulavam pela população que estava morando nos EUA.
Apesar das diferentes influências culturais e geográficas, há um elemento que conecta todas essas histórias: o ritmo.
No reggaeton, essa base rítmica é conhecida como dembow. Derivado do dancehall jamaicano, o padrão se tornou a espinha dorsal do gênero e ajudou a definir sua identidade sonora. Segundo o etnomusicólogo Felipe Maia, o termo pode se referir tanto a uma célula rítmica quanto a um gênero musical.
"O dembow é duas coisas: ele é o nome de um sample, de uma célula rítmica, e também um gênero musical."Felipe Maia — Etnomusicólogo
Maia explica que o ritmo ganhou força a partir de uma música chamada "Dem Bow", do jamaicano Shabba Ranks, que acabou se tornando referência para outras produções.
"Essa música estourou tanto que muita gente começou a fazer outras faixas baseadas nesse mesmo tipo de batida."Felipe Maia — Etnomusicólogo
Em Porto Rico, no final da década de 1980, a música underground falava da realidade de bairros marginalizados sem romantização — sexualidade, drogas, riqueza, pobreza e violência.
Em Nova Iorque, imigrantes caribenhos — jamaicanos, panamenhos, porto-riquenhos e dominicanos — viviam e eram racializados juntos, misturando suas tradições musicais.
O resultado dessa confluência transnacional chegaria décadas depois a um estádio lotado em São Paulo.
A repetição desse padrão rítmico acabou ajudando a consolidar o reggaeton como gênero. Felipe Maia exemplifica:
"A galera começava a dizer: 'põe aquele beat do dembow'. E aí as pessoas rimavam em cima daquela batida. E isso vai virar o que a gente chama de reggaeton."Felipe Maia — Etnomusicólogo
O dembow também seguiu seu próprio caminho musical.
"Paralelamente, o dembow também se desenvolve como um gênero próprio dentro da República Dominicana."Felipe Maia — Etnomusicólogo
A trajetória dessa célula rítmica ajuda a mostrar como a música circula e se transforma entre diferentes territórios e experiências sociais. Cada país recebe o gênero de uma forma e, a partir disso, adiciona suas particularidades, reforçando a importância da música para compreender a cultura. Para o etnomusicólogo Felipe Maia, tratar a música apenas como reflexo da sociedade é reduzir o seu papel na experiência humana.
"Música não é um reflexo, música é a sociedade."Felipe Maia — Etnomusicólogo
No início, o reggaeton não era estruturado em torno de grandes artistas ou gravadoras. A organização da cena acontecia principalmente por meio do trabalho de DJs e produtores independentes que reuniam diferentes MCs em compilações e mixtapes. Esses produtores tiveram um papel importante na formação da identidade sonora do gênero, ao experimentar batidas que combinavam o dancehall jamaicano, de onde deriva o dembow, com os elementos do hip-hop. Entre os DJs pioneiros que ajudaram a estruturar e produzir algumas das primeiras compilações estão DJ Playero, DJ Negro e DJ Eric.
Essa cultura também se desenvolvia em festas conhecidas como marquesinas, realizadas em garagens de casas em Porto Rico. Esses encontros reuniam os DJs, MCs e jovens interessados na música urbana e funcionavam como espaços de experimentação musical e sociabilidade. O gênero ainda não tinha espaço nas rádios ou na indústria musical.
O DJ Negro foi um grande nome da cena underground porto-riquenha. Ele era responsável por festas realizadas no clube The Noise, em San Juan, capital de Porto Rico, que se tornaram outro ponto de encontro para esses DJs, MCs e jovens. A partir dessas festas surgiram as coletâneas de música The Noise, que reuniam diferentes artistas e ajudaram a ampliar a circulação do gênero dentro da cena local.
Foi nesse circuito de marquesinas, mixtapes e compilações que surgiram alguns dos artistas mais emblemáticos do reggaeton.
Os pioneiros que moldaram o gênero
No início dos anos 2000, o governo local buscou "regularizar" as letras das músicas a fim de se tornarem mais "palatáveis" ao ouvido. Foram questionadas a hiperssexualização das mulheres e a linguagem usada que, segundo os órgãos de poder e as elites, incitava à violência e ao consumo de drogas. Além disso, a dança perreo também foi alvo de críticas e tentativa de censura, porque consideravam que eram movimentos muito sensuais — ao longo dos capítulos discutiremos mais aprofundadamente o ato de "perrear".
Por mais que muitos consideravam que essas mudanças roubariam a essência do gênero, ela permitiu que a música circulasse nas rádios e na indústria musical. Alguns artistas abraçaram a mudança e outros mantiveram em suas letras o tom provocativo e as denúncias sociais.
A verdade é que essa questão é muito mais profunda: ela aborda as mudanças como uma forma de silenciar o que antes era usado como instrumento das periferias contra o sofrimento e a marginalização que sofriam.
Tego Calderón foi um dos autores que falava sobre racismo e, ao mesmo tempo, fazia suas músicas rodarem pelo público, celebrando suas origens afro-boricuas.
A circulação do ritmo na América Latina e a forma como o Brasil começou a incorporar o reggaeton fazem parte de uma história de trocas culturais, plataformas digitais e uma geração conectada ao pop latino. A circulação do ritmo na América Latina chegou ao Brasil por rotas diversas — festivais, plataformas digitais, festas universitárias e uma geração de jovens conectada à cultura pop latina.
Nos últimos anos, o reggaeton, gênero musical que nasceu no Caribe, atravessou fronteiras linguísticas, geográficas e culturais. Hoje, artistas latinos como Bad Bunny, os colombianos J. Balvin, Maluma, Feid e Karol G, argentinos Duki, Maria Becerra, Tini e Emília Mernes, e, a brasileira, Anitta ocupam diversas vezes os primeiros lugares das paradas globais, acumulam bilhões de reproduções nas plataformas digitais e lotam estádios em diferentes partes do mundo.
No Brasil, esse movimento também ganha força. Festas dedicadas ao gênero se multiplicam, DJs passam a incluí-lo em seus sets e o público brasileiro se integra cada vez mais ao espírito "reggaetonero".
Desde o underground porto-riquenho, as mulheres ocuparam espaços de resistência e criação dentro do reggaeton. Ivy Queen — a "Reina del Reggaeton" — foi uma das primeiras vozes femininas a afirmar autonomia e desejo no gênero, numa cena dominada por homens.
O reggaeton é frequentemente criticado pela objetificação feminina em suas letras e videoclipes. Essa tensão é real e deve ser nomeada. Mas também é real que mulheres artistas sempre encontraram formas de subverter, apropriar e ressignificar esse espaço.
Karol G, Anitta, Tokischa, La Perversa — cada uma delas encontrou no reggaeton um palco para falar de suas próprias experiências, corpos, desejos e identidades, muitas vezes em confronto direto com os padrões impostos pela indústria.
O ato de perrear — mais do que uma dança, uma forma de resistência cultural e expressão do corpo.
Do espanhol popular caribenho: dançar com movimentos sensuais e ritmados ao som do reggaeton. Alvo de censura e crítica social desde as origens do gênero, o perreo se tornou símbolo de liberdade corporal e identidade cultural latina. A palavra deriva de perro (cachorro), referindo-se ao estilo de dança. A dança foi alvo de censura por parte das autoridades porto-riquenhas nos anos 1990 e 2000, que a consideravam excessivamente sensual e incompatível com os valores da sociedade. Mas proibir o perreo nunca apagou o perreo.
Um gênero que nasceu na periferia, resistiu à censura, cruzou oceanos e hoje ecoa em 45 mil vozes dentro de um estádio paulistano cantando em espanhol. Para onde vai o reggaeton?
O futuro do reggaeton está sendo escrito agora — nas festas de São Paulo, nas plataformas digitais, nos estúdios de artistas que misturam o dembow com o funk carioca, o baile, o afrobeats. A convergência é inevitável. A mistura, irresistível.
Um gênero que nasceu na periferia, resistiu à censura, cruzou oceanos e hoje ecoa em 45 mil vozes dentro de um estádio paulistano cantando em espanhol.